quinta-feira, 14 de março de 2013

Eu e a menina ruiva - o conto

Ainda te lembras de quando te lancei um desafio de escreveres um conto sobre um lápis? Relembrar!

Esse exercício surgiu de um que eu tinha feito sobre a vida de um copo. Espero que gostes.


Eu e a menina ruiva

Nascia na Marinha Grande. A minha primeira memória é de um calor imenso que intercalava com o sopro que vinha do tubo que me segurava. Foi na água fria que tive o meu primeiro sopro de vida, abri os olhos e vi o meu pai, que me olhava com um olhar enternecedor, satisfeito por ter dado vida a mais um copo listado.
Foi curto o tempo que passámos juntos. Despediu-se triste enquanto me colocava a mim e aos meus irmãos numa caixa. Não os cheguei a ver na viagem que se seguiu, nem conseguíamos conversar, tínhamos paredes de cartão a separar-nos.
Perdi-me nos meus pensamentos, “para onde iríamos?”. Adormeci embalado pelos movimentos do veículo que nos transportava.
Acordei com uma luz que me cegava e, quando finalmente me habituei àquela claridade, vi uma cara risonha que ia colocando os meus irmãos numa prateleira. Por fim, também eu me juntei a eles. Durante vários dias e várias noites me interroguei sobre o que estaríamos ali a fazer. Vi passar muitas pessoas, ou os seus joelhos, mas ninguém se parecia importar connosco. E não voltei a ver a cara risonha que me tirara da caixa.
Quando fazia perguntas aos meus irmãos ou tentava conversar com eles para passar o tempo respondiam-me: “Cala-te! Tu és um copo! Não tens que falar, nem pensar!”.
Estava cada vez mais triste. Até que um dia, parou à minha frente uma menina ruiva e sardenta, que se colocou de cócoras e gritou: “Mamã, mamã, eu quero este copo às riscas.”.
Nesse dia começou a minha nova vida. A Carolina, a menina ruiva e sardenta que se pôs de cócoras e me escolheu entre os demais, tomava conta de mim. Eu era o seu copo e ela usava-me para tudo. À hora da refeição segurava-lhe o sumo, também lhe dava o leite pela manhã, fingia-me uma chávena à hora do chá com as suas bonecas, e continha a água que ela usava para lavar os dentes.
Todas as noites dormia na sua mesa de cabeceira depois de ouvir a história que a sua mãe lhe contava.
Nunca me deixava ir à máquina de lavar loiça com medo que me queimasse numa água tão quente, nem aceitava pôr-me água gelada dentro porque não me queria ver constipado.
Éramos amigos inseparáveis até que um dia apareceu lá por casa o primo João, um traquina, sempre aos chutos à bola que acabou por me deitar ao chão.
A Carolina chorou sem parar. Felizmente não estava todo partido, mas a grande racha que me percorria impedia que a minha amiga ruiva e sardenta me continuasse a usar.
Benditas mães que arranjam sempre solução para tudo. Agora sou responsável por guardar as canetas da Carolina, vigio-a todos os dias enquanto faz os trabalhos da escola e oiço as histórias que me conta antes de irmos dormir.

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