Ainda te lembras de quando te lancei um desafio de escreveres um conto sobre um lápis?
Relembrar!
Esse exercício surgiu de um que eu tinha feito sobre a vida de um copo. Espero que gostes.
Eu e a menina ruiva
Nascia
na Marinha Grande. A minha primeira memória é de um calor imenso
que intercalava com o sopro
que vinha do tubo que me segurava. Foi na água fria que tive o meu
primeiro sopro de vida, abri os olhos e vi o meu pai, que me olhava
com um olhar enternecedor, satisfeito por ter dado vida a mais um
copo listado.
Foi
curto o tempo que passámos juntos. Despediu-se triste enquanto me
colocava a mim e aos meus irmãos numa caixa. Não os cheguei a ver
na viagem que se seguiu, nem conseguíamos conversar, tínhamos
paredes de cartão a separar-nos.
Perdi-me
nos meus pensamentos, “para onde iríamos?”. Adormeci embalado
pelos movimentos do veículo que nos transportava.
Acordei
com uma luz que me cegava e, quando finalmente me habituei àquela
claridade, vi uma cara risonha que ia colocando os meus irmãos numa
prateleira. Por fim, também eu me juntei a eles. Durante vários
dias e várias noites me interroguei sobre o que estaríamos ali a
fazer. Vi passar muitas pessoas, ou os seus joelhos, mas ninguém se
parecia importar connosco. E não voltei a ver a cara risonha que me
tirara da caixa.
Quando
fazia perguntas aos meus irmãos ou tentava conversar com eles para
passar o tempo respondiam-me: “Cala-te! Tu és um copo! Não tens
que falar, nem pensar!”.
Estava
cada vez mais triste. Até que um dia, parou à minha frente uma
menina ruiva e sardenta, que se colocou de cócoras e gritou: “Mamã,
mamã, eu quero este copo às riscas.”.
Nesse
dia começou a minha nova vida. A Carolina, a menina ruiva e sardenta
que se pôs de cócoras e me escolheu entre os demais, tomava conta
de mim. Eu era o seu copo e ela usava-me para tudo. À hora da
refeição segurava-lhe o sumo, também lhe dava o leite pela manhã,
fingia-me uma chávena à hora do chá com as suas bonecas, e
continha a água que ela usava para lavar os dentes.
Todas
as noites dormia na sua mesa de cabeceira depois de ouvir a história
que a sua mãe lhe contava.
Nunca
me deixava ir à máquina de lavar loiça com medo que me queimasse
numa água tão quente, nem aceitava pôr-me água gelada dentro
porque não me queria ver constipado.
Éramos
amigos inseparáveis até que um dia apareceu lá por casa o primo
João, um traquina, sempre aos chutos à bola que acabou por me
deitar ao chão.
A
Carolina chorou sem parar. Felizmente não estava todo partido, mas a
grande racha que me percorria impedia que a minha amiga ruiva e
sardenta me continuasse a usar.
Benditas
mães que arranjam sempre solução para tudo. Agora sou responsável
por guardar as canetas da Carolina, vigio-a todos os dias enquanto
faz os trabalhos da escola e oiço as histórias que me conta antes
de irmos dormir.